Os corredores de hospital são todos iguais. Tons de branco e verde, que acreditam ser cores de cura, dominam paredes, portas e até mesmo janelas. Uma mulher de cabelos negros bate suavemente à porta, três batidas com espaços de tempo iguais, antes de entrar. Sua roupa de ar profissional contrasta com os braceletes de courino e com a pesada maquiagem ao redor de seus olhos, tornando-a o equilíbrio perfeito. Ela entra, com uma rosa azul em sua mão.
- Quem é você? – Pergunta o paciente na cama.
Ele é um homem que um dia fora muito belo. Seus traços masculinos e os olhos verdes ainda resistem bravamente à ação impiedosa do tempo. Está com um oximetro preso ao dedo e um cateter nasal, coberto com o fino lençol esverdeado.
- Sou alguém que você não conhece. – Ela responde, indo sentar na única cadeira ao lado da cama, o único móvel negro naquela vastidão branca.
Há um vaso de flores em uma mesinha, mas ele parece vazio há anos. Ele a encara com enorme curiosidade, sem realmente saber quem ela é.
- Se eu não a conheço, por que veio me visitar?
A mulher não responde de imediato. Pega o vaso e o leva ao banheiro, lavando o vidro empoeirado e enchendo o recipiente com água cristalina. Ela o deposita novamente sobre a mesa, já com a rosa em seu interior.
- Porque eu o conheço. – Responde, com um pequeno sorriso. – Você era a voz principal da minha banda favorita.
- Isso já faz muito tempo. – Aparentemente aborrecido, ele olha para fora da janela gradeada, por onde as sombras começam a crescer, oriundas do trajeto do sol poente.
- Foi difícil encontra-lo. – Ela prossegue, como quem ignora. – Precisei viajar muito.
- Novamente, por que veio?
- Você acredita em destino?
Pela primeira vez, ela sente que suas palavras o capturaram. Ele fixa os olhos verdes nos dela, um misto de curiosidade com expectativa.
- Não tenho certeza se acredito ou não. – Ele finalmente responde, após vários segundos de silêncio.
- Bom, pode-se dizer que você é meu destino. Quer acredite nisso ou não. – Ela coloca a mão sobre a dele, com todo cuidado para não mover o oximetro.
- Porque eu deveria acreditar?
- Não posso obriga-lo a nada. – A mulher olha para fora da janela, com o mesmo olhar que ele lançara minutos antes. – Mas você sabe que, apesar de nunca ter me encontrado propriamente, você sente que eu sou diferente. E que, desde sempre, você tem essa sensação de que falta alguém. Mesmo tendo se casado e tido filhos, você simplesmente se conformou com o vazio. Infelizmente, essa vida não foi a certa para nós. Estávamos distantes demais, diferentes demais, e não pudemos nos encontrar da forma certa. Você era inatingível. Então, nós nos casamos, tivemos nossos filhos, vivemos nossas vidas de formas distintas. Mas aquele sentimento de falta nunca desapareceu. Ou eu estou errada?
- Eu não quero morrer, Kiara... – Murmura ele, com os olhos perdendo o brilho e o foco aos poucos. – Tenho medo.
Ela sorri ao ser chamada pelo nome, um momento de consciência sobrenatural que não era esperado.
- Eu também tenho, Mikko. – Levantando-se, ela beija os lábios dele com suavidade. – Mas é necessário. Pelo menos, você viveu uma longa vida.
- Nós nos encontraremos de novo?
- Sim, meu amor. Mais cedo ou mais tarde, nós nos encontraremos de novo.
O homem morreu minutos após a saída dela do quarto. Indolor. Seu coração simplesmente parou de bater, como uma analogia patética a um coração partido.
A mulher morreu horas depois, em um acidente de carro. O motorista do caminhão que transformou o veículo em uma lata de sardinha jurou que aquele acidente não fazia sentido. Em seu depoimento, disse que ele simplesmente ouviu uma voz dizendo “ela precisa ir”, e sua visão ficou negra.
- Quem é você? – Pergunta o paciente na cama.
Ele é um homem que um dia fora muito belo. Seus traços masculinos e os olhos verdes ainda resistem bravamente à ação impiedosa do tempo. Está com um oximetro preso ao dedo e um cateter nasal, coberto com o fino lençol esverdeado.
- Sou alguém que você não conhece. – Ela responde, indo sentar na única cadeira ao lado da cama, o único móvel negro naquela vastidão branca.
Há um vaso de flores em uma mesinha, mas ele parece vazio há anos. Ele a encara com enorme curiosidade, sem realmente saber quem ela é.
- Se eu não a conheço, por que veio me visitar?
A mulher não responde de imediato. Pega o vaso e o leva ao banheiro, lavando o vidro empoeirado e enchendo o recipiente com água cristalina. Ela o deposita novamente sobre a mesa, já com a rosa em seu interior.
- Porque eu o conheço. – Responde, com um pequeno sorriso. – Você era a voz principal da minha banda favorita.
- Isso já faz muito tempo. – Aparentemente aborrecido, ele olha para fora da janela gradeada, por onde as sombras começam a crescer, oriundas do trajeto do sol poente.
- Foi difícil encontra-lo. – Ela prossegue, como quem ignora. – Precisei viajar muito.
- Novamente, por que veio?
- Você acredita em destino?
Pela primeira vez, ela sente que suas palavras o capturaram. Ele fixa os olhos verdes nos dela, um misto de curiosidade com expectativa.
- Não tenho certeza se acredito ou não. – Ele finalmente responde, após vários segundos de silêncio.
- Bom, pode-se dizer que você é meu destino. Quer acredite nisso ou não. – Ela coloca a mão sobre a dele, com todo cuidado para não mover o oximetro.
- Porque eu deveria acreditar?
- Não posso obriga-lo a nada. – A mulher olha para fora da janela, com o mesmo olhar que ele lançara minutos antes. – Mas você sabe que, apesar de nunca ter me encontrado propriamente, você sente que eu sou diferente. E que, desde sempre, você tem essa sensação de que falta alguém. Mesmo tendo se casado e tido filhos, você simplesmente se conformou com o vazio. Infelizmente, essa vida não foi a certa para nós. Estávamos distantes demais, diferentes demais, e não pudemos nos encontrar da forma certa. Você era inatingível. Então, nós nos casamos, tivemos nossos filhos, vivemos nossas vidas de formas distintas. Mas aquele sentimento de falta nunca desapareceu. Ou eu estou errada?
- Eu não quero morrer, Kiara... – Murmura ele, com os olhos perdendo o brilho e o foco aos poucos. – Tenho medo.
Ela sorri ao ser chamada pelo nome, um momento de consciência sobrenatural que não era esperado.
- Eu também tenho, Mikko. – Levantando-se, ela beija os lábios dele com suavidade. – Mas é necessário. Pelo menos, você viveu uma longa vida.
- Nós nos encontraremos de novo?
- Sim, meu amor. Mais cedo ou mais tarde, nós nos encontraremos de novo.
O homem morreu minutos após a saída dela do quarto. Indolor. Seu coração simplesmente parou de bater, como uma analogia patética a um coração partido.
A mulher morreu horas depois, em um acidente de carro. O motorista do caminhão que transformou o veículo em uma lata de sardinha jurou que aquele acidente não fazia sentido. Em seu depoimento, disse que ele simplesmente ouviu uma voz dizendo “ela precisa ir”, e sua visão ficou negra.
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