Au.to.ma.to.no.fo.bi.a - Caracteriza-se pela fobia (ou medo) de bonecos, ventríloquos, estátuas de cera e criaturas animadas. Tudo que imite um ser vivo.
Você já se sentiu observado por algo que se assemelha a um humano, mas que ao mesmo tempo mal parece realmente um humano? Já se sentiu fitado por aqueles olhos de vidro, que parecem acompanhar cada movimento seu? Já ouviu sussurros, como se conversassem entre si? Já se perguntou como foram parar em tal lugar, quando na sua memória você tinha certeza de ter colocado em outro móvel, em outro cômodo?
Mesmo com todo esse medo, ela estava naquele quarto. Aquele maldito quarto. Seu pai, quando vivo, era um artesão que fazia bonecas, especializado nas de porcelana. Nunca realmente vendeu bem, e as criações acabavam amontoadas naquele cômodo desconfortável.
Antes, não havia problema nenhum em entrar lá, enquanto seu pai trabalhava na antiga escrivaninha. Agora, com a casa fechada há tanto tempo e seu pai morto há tantos anos, a situação era outra.
Ela alisou ansiosamente o avental branco de babados por sobre o vestido azul claro que seu pai fizera, e afastou com um sopro a franja loira da testa, única parte lisa de seu cabelo de cachos perfeitos. Não voltaria àquele lugar a menos que fosse extremamente necessário.
Com passos desajeitados, caminhou até a velha cama que rangia do lado direito, e sentou. A cabeça de todas as bonecas estavam viradas para ela, encarando as paredes com seus olhos de vidro (aparentemente) sem vida. Murmúrios se espalhavam, como se as paredes falassem, comentando que a filha desnaturada finalmente voltava à casa onde fora criada.
E então, em meio ao silêncio estranho, a cama rangeu, fazendo seu sangue gelar. Com seus olhos díspares em verde e azul, ela arriscou olhar. Na cama, antes vazia, agora sentava uma boneca. Sua cabeça de porcelana estava quebrada, deixando-a com apenas um olho vidrado. O ar esfriava depressa, e em pouco tempo a garota já conseguia ver a condensação de sua respiração.
Ao lançar uma segunda olhada à boneca sentada, percebeu uma leve fumaça saindo da boquinha pintada de coral. Um longo arrepio percorreu seu corpo, e não estava ligado ao frio do quarto. Aos poucos, vapores começaram a escapar das bocas de todas as bonecas, e seus rostos lentamente giraram com um barulho arranhado da porcelana da cabeça contra a porcelana do corpo.
A hora se aproximava.
Ela fechou os olhos, e esperou. Um vento inexplicável percorreu o quarto, fazendo-a gritar brevemente e abrir os olhos. Todas as bonecas estavam no chão, trincadas. Ao se virar, ficou cara a cara com uma garota sem um pedaço da cabeça, sorrindo insanamente enquanto o sangue pingava grosso pelo colchão, a cavidade a boca e do nariz perfeitamente visíveis. A mão fria como porcelana se fechou com força ao redor do pescoço da loira, e o sorriso insano da outra aumentou.
- Bem-vinda de volta, irmã.
xXx
No frio da noite, o vapor continuava subindo das pequenas bocas de porcelana. Inclusive das duas bonecas sobre a cama, gêmeas. Apenas uma dera sorte. Quando sua irmã caiu no chão, quebrando, o fazedor de bonecas usou seu olho azul na mais nova, e um olho verde que sobrara, tornando-a a boneca mais desejada e a mais querida por seu dono, enquanto a outra permanecia com um lenço sobre ela, para evitar de assustar as crianças.
Quando o velho fazedor de bonecas aceitou o contrato que daria vida à boneca, não sabia que elas eram como uma só.
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