Ela era só uma criança quando perdeu os pais para a Guarda Real. Escondida sobre as tábuas frouxas do assoalho, conseguiu escapar. Sem família e renegando a sua pátria, acabou por passar alguns anos vivendo de pequenos crimes no porto da cidade. Então, um dia um navio sem bandeira aportou, apenas para comprar suprimentos. A garota já com pelo menos 15 invernos vividos resolveu se apresentar ao capitão, que gostou dela e a aceitou na tripulação.
Os primeiros dias foram difíceis tentando escapulir dos abusos verbais do restante da tripulação. Foi depois de pelo menos uma semana que a garota se provou como pirata. Brigou em uma taverna, e, segundo os marujos, brigou como homem. De mãos limpas, contra três. Saiu com apenas um arranhão na bochecha.
Sem que ninguém soubesse, o capitão cuidou daquele ferimento leve. Não houve mais piadas e insultos. Ela acabou por fazer um amigo, um pirata cabeça dura que vivia brigando com o capitão e estava sempre descascando batatas por sua ousadia. Eles passaram bastante tempo juntos já que a garota ficava no porão costurando bandeiras para que o navio se aproximasse pacificamente antes do saque, ao lado das pilhas de cascas de batatas que o outro interminavelmente descascava.
Apesar de serem amigos, algumas vezes discutiam por terem gostos parecidos. Ao final de cada pilhagem, o capitão deixava que os melhores escolhessem o que quisessem de tudo que foi roubado. Em uma das vezes, os dois discutiram porque queriam o mesmo espelho ornado. Ela sob o argumento de que era uma dama, e damas precisavam de espelhos. Ele sob o argumento de não aguentar mais se cortar com a navalha ao fazer a barba. O capitão, sem paciência, jogou o espelho ao mar e os mandou escolher outra coisa.
Durante alguns anos, em segredo, a garota foi mulher do capitão. Porém, quando ele morreu por uma doença desconhecida em alto-mar, foi seu amigo quem assumiu o navio. A Grande Expansão Marítima estava acabando, e os anos da pirataria estavam contados. Seu amigo acabou assassinado por uma prostituta ciumenta em uma taverna, dando o comando à garota.
Ela comandou a tripulação por mais alguns anos e conseguiu reunir uma frota de 15 navios, antes de desaparecer misteriosamente nas águas. Há quem diga que ela se tornou uma sereia. Outros insistem em dizer que o capitão a chamou, fazendo-a pular a seu encontro. Em uma coisa, todos concordam: ao menos, ela reencontrara seu capitão. Não seria um navio desgarrado.
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