A pequena garota estava sentada no meio do milharal, as duas longas tranças negras dançando em volta do seu rosto corado. À sua frente, o espantalho a encarava fixamente com os olhos vazios. Curiosamente, ele piscou. Ela deixou a cabeça pender para um lado, imaginando se aquilo fora ilusão causada pelo reflexo do milharal nos olhos espelhados. Novamente, o espantalho piscou.
- Você está vivo? – Perguntou sua vozinha infantil.
- Quase tanto quanto você. – Respondeu o espantalho, cuspindo um pouco de palha enquanto falava.
Assim, os dois começaram a conversar, ficando amigos em poucos minutos. Todos os dias, a garota corria para o meio do milharal para encontrar o espantalho. Até mesmo quando chovia, ela levava uma florida sombrinha e uma tábua de madeira para sentar longe do chão lamacento.
- Se você pudesse fazer um pedido, – Perguntou ela em um dia quente, quando a plantação estava quase seca e marrom. – qual seria?
- Eu gostaria de ter um cérebro. – Sorriu o espantalho.
- Um cérebro? – A garota ergueu uma sobrancelha. – Por quê?
- Para ter as ideias certas na cabeça, para conseguir ter um raciocínio lógico, para pensar.
Ela se virou e começou a se afastar.
- Onde você vai? – Gritou o espantalho.
- Embora. – Gritou ela de volta.
- Por quê?
- Não quero ficar perto de alguém que prefere ter um cérebro a ter um coração.
O espantalho baixou a cabeça, pensativo, enquanto grossas gotas de chuva castigavam sua palha e suas roupas velhas. A garota nunca mais voltou.
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